Leitura em Hospitais: Bichos e Monstros Ajudam Crianças e Inspiram a EJA

Por: Gustavo Oliveira   •   Atualizado em: 20 de abril de 2026
Leitura em Hospitais: Bichos e Monstros Ajudam Crianças e Inspiram a EJACrédito: Imagem original de G1

O Fascinante Mundo dos Livros para Crianças Hospitalizadas

No ambiente hospitalar, onde a rotina é marcada por procedimentos e incertezas, a leitura surge como um refúgio poderoso para crianças. Uma pesquisa recente, realizada por especialistas da Unicamp e Unifesp, revela um dado surpreendente: pequenos pacientes preferem histórias com personagens fantásticos, como animais e monstros humanizados. Este fenômeno, embora focado na infância, oferece insights valiosos sobre o poder da narrativa e sua aplicação em diversos contextos educacionais, inclusive para a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Este artigo explora os achados desse estudo, detalhando a preferência das crianças, o impacto terapêutico da leitura e as iniciativas brasileiras que transformam a experiência hospitalar. Veremos como a magia dos contos pode ser uma ferramenta essencial para o bem-estar e o desenvolvimento cognitivo, com reflexos importantes para o ensino em todas as idades.

A Preferência Pelo Fantástico: Dados de Pesquisa

O levantamento “Entre Bichos e Monstros”, publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP), analisou as escolhas de 174 crianças, com idades entre 6 e 10 anos. Os pequenos estavam internados em dois hospitais com perfis distintos: o Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas, e o Hospital da Criança Rede D’Or São Luiz, em São Paulo. Apesar das diferenças socioeconômicas e educacionais, a conclusão foi unânime.

Quando tiveram a liberdade de escolher, as crianças demonstraram uma clara predileção por narrativas protagonizadas por seres fantásticos que agem como gente. Histórias com humanos como personagens principais ficaram em segundo plano. Essa preferência não é apenas uma curiosidade, mas um indicativo de como a imaginação pode ser uma ferramenta de enfrentamento em momentos delicados.

Beatriz Burgo, pesquisadora da Unicamp e coautora do estudo, destaca que este distanciamento emocional é crucial. Envolver-se com um monstro que sente medo ou um animal que busca seu lugar no mundo permite à criança processar sentimentos complexos sem se confrontar diretamente com realidades humanas, que no ambiente hospitalar podem ser dolorosas e pesadas. É uma forma segura de escape e acolhimento.

Títulos Favoritos e Seus Segredos de Acolhimento

A pesquisa identificou uma série de livros que cativaram os jovens leitores. São histórias que, em sua maioria, apresentam personagens com os quais é fácil criar empatia, mesmo que sejam de outro mundo. Estes títulos se tornaram verdadeiros aliados no processo de humanização do cuidado hospitalar.

A lista de preferidos reflete a busca por narrativas que transportam a criança para longe da rotina do hospital, oferecendo leveza e aventura. Diferente do que muitos adultos imaginam, as crianças não buscam necessariamente mensagens educativas explícitas ou temas sociais. Elas querem uma “virada de chave”, um portal para a fantasia.

  • O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado (Audrey e Don Wood)
  • O grande rabanete (Tatiana Belinky)
  • Monstro Rosa (Olga de Dios)
  • Macaco danado (Julia Donaldson)
  • Carona (Guilherme Karsten)
  • Pinóquio (Carlo Collodi)
  • O monstro monstruoso e a caverna cavernosa (Rosana Rios)
  • Um leão dentro de nós (Rachel Bright)
  • Os músicos de Bremen (Irmãos Grimm)
  • Gildo (Silvana Rando)

Para Além do Conto: O Impacto Terapêutico da Leitura

A leitura e a contação de histórias oferecem um espaço vital de imaginação e prazer, algo que tende a ser diluído em um ambiente hospitalar. A pesquisadora Beatriz Burgo enfatiza que a experiência literária proporciona acolhimento e atenua o sofrimento em um período de grande sensibilidade para a criança. Isso é especialmente verdadeiro quando ela está separada da família, dos amigos e do ambiente escolar, e sujeita a procedimentos muitas vezes ameaçadores.

A pesquisa também classificou os livros em diferentes grupos para entender como a estrutura narrativa influencia o interesse infantil. Essa análise ajuda a compreender quais tipos de histórias são mais eficazes para o engajamento e o bem-estar dos pequenos. O poder de escolha, oferecido às crianças no estudo, foi um fator determinante para o sucesso da iniciativa.

Tipo de NarrativaCaracterísticas PrincipaisImpacto na Criança
Narrativas SimplesAções lineares e rápidas, final previsívelLeitura leve, fácil assimilação, conforto
Narrativas ComplexasPersonagens que erram, correm riscos, grandes transformaçõesEstimula a reflexão, elaboração de sentimentos
Poesias NarrativasRitmo, som das rimas, ludicidadeEnvolvimento sensorial, prazer estético

A Leitura como Ponte para o Bem-Estar Integral e o Ensino de Jovens e Adultos (EJA)

O impacto da leitura vai além do entretenimento. Para crianças hospitalizadas, ela reduz a percepção da dor, diminui a ansiedade e estimula a imaginação, elementos cruciais para o desenvolvimento cognitivo. Personagens como o Monstro Rosa, que busca seu lugar no mundo, ou o elefante Gildo, que sente medo, oferecem um espelho seguro para que a criança elabore seus próprios sentimentos, como o receio de uma injeção ou a saudade de casa.

Esses princípios de engajamento e identificação são universais e aplicáveis a outras esferas da educação. A capacidade de uma história de criar distanciamento emocional e oferecer um espaço de imaginação é igualmente relevante para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em programas de alfabetização e continuidade escolar, o uso de narrativas envolventes pode ser um poderoso catalisador para a motivação e a assimilação de novos conhecimentos.

Assim como os livros infantis transportam os pequenos para longe da rotina hospitalar, materiais didáticos criativos e histórias bem construídas podem tornar o aprendizado mais acessível e prazeroso para adultos que buscam retomar seus estudos. A conexão emocional com o conteúdo é um pilar fundamental para o sucesso educacional em qualquer fase da vida.

Iniciativas Brasileiras: O Afeto que Transforma Hospitais

No Brasil, a humanização do ambiente hospitalar através da leitura é uma realidade graças a iniciativas como o projeto Viva e Deixe Viver. Esta organização da sociedade civil atua há quase três décadas, promovendo a literatura e o lúdico criativo em hospitais. Reconhecida pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura, a associação conta com 721 voluntários ativos.

Esses voluntários levam histórias, instrumentos musicais e muita alegria a 90 hospitais em todo o país. Anualmente, mais de 13,4 mil livros são lidos, transformando a experiência de milhares de crianças. Valdir Cimino, fundador da associação, descreve a leitura como um “remédio para a alma”.

Para a criança, o contador de histórias é uma janela para o mundo exterior, permitindo que ela seja apenas criança, não um paciente. Para os pais e acompanhantes, a presença dos voluntários oferece um respiro emocional, mostrando que não estão sozinhos. A iniciativa também tem expandido seus temas, incluindo letramento racial, povos originários e a rica diversidade brasileira, reforçando seu compromisso com uma sociedade mais humanizada e inclusiva.

O Legado de Histórias e a Força da Educação Contínua

A pesquisa sobre a preferência literária de crianças hospitalizadas e o trabalho de organizações como o Viva e Deixe Viver demonstram o poder transformador da leitura. Mais do que um passatempo, os livros são ferramentas essenciais para o acolhimento, a elaboração de sentimentos e o estímulo ao desenvolvimento cognitivo em momentos de vulnerabilidade. A liberdade de escolha e a conexão com o fantástico revelam um caminho eficaz para o bem-estar infantil.

Os aprendizados deste estudo ressaltam a importância da narrativa e da identificação para o engajamento em qualquer processo de ensino. Que esta pesquisa inspire mais iniciativas e reforce a importância da leitura para todos, desde a infância até programas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), garantindo que a cultura e a educação sejam direitos fundamentais acessíveis e prazerosos em todas as fases da vida. Fique de olho nas novidades e compare antes de decidir quais histórias podem fazer a diferença.

Perguntas Frequentes

Por que crianças hospitalizadas preferem livros com animais e monstros?

Crianças em hospitais preferem livros com personagens fantásticos porque eles criam um distanciamento emocional seguro. Isso permite que elas se envolvam com a história e elaborem sentimentos difíceis sem se confrontar diretamente com temas humanos que podem ser dolorosos no contexto hospitalar.

Qual a idade das crianças participantes do estudo?

O estudo “Entre Bichos e Monstros” avaliou as respostas de 174 crianças com idades entre 6 e 10 anos.

Quais são os livros mais citados pelas crianças?

Entre os títulos mais citados estão “O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado”, “O grande rabanete” e “Monstro Rosa”, entre outros que apresentam personagens animais ou fantásticos.

Como a leitura ajuda crianças em hospitais?

A leitura proporciona acolhimento, atenua o sofrimento, cria um espaço de imaginação e prazer, e ajuda a criança a se identificar com personagens que enfrentam desafios. Isso reduz a percepção da dor, diminui a ansiedade e estimula o desenvolvimento cognitivo.

O que é o projeto Viva e Deixe Viver?

O Viva e Deixe Viver é uma organização da sociedade civil brasileira que promove a literatura e o lúdico criativo em ambientes hospitalares. Com voluntários, a iniciativa leva histórias e alegria a crianças internadas, humanizando o cuidado e oferecendo apoio emocional.

Como a escolha dos livros impacta a criança hospitalizada?

Dar à criança a liberdade de escolher seus livros aumenta seu engajamento e o impacto positivo da leitura. Ela busca histórias que a transportem para longe da rotina hospitalar, oferecendo uma “virada de chave” e um senso de controle em um ambiente onde suas escolhas são frequentemente limitadas.

Existe alguma relação entre este estudo e a Educação de Jovens e Adultos (EJA)?

Sim, os princípios de engajamento e identificação observados no estudo são universais. A capacidade da narrativa de criar distanciamento emocional e oferecer um espaço de imaginação é relevante para a EJA, onde histórias envolventes podem motivar adultos e tornar o aprendizado mais prazeroso e eficaz.

Fonte de dados publicados originalmente por G1. Confira a cobertura completa no site oficial.

Sobre o Autor

Ensinar é evoluir. Gustavo conecta educação e tecnologia com métodos que funcionam na prática.

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